Um quati ébrio
Histórias da floresta (1)
Às vezes, o cronista perambula entre um e outro assunto e, em vez de sofrer com a falta, é assediado pelo excesso. Vai de um a outro, experimenta um começo aqui, ensaia outro ali, até que a própria vida, com seu senso de oportunidade, lhe põe nas mãos a história que deve ser contada. Foi assim que surgiu a história de um quati ébrio.
Primeiro, é preciso situar o leitor no ambiente em que vivemos há dezesseis anos, habituados à convivência com diversos animais, por termos escolhido morar “na Floresta”.
Estamos cercados por várias espécies: a doce, e por vezes barulhenta, seriema; pássaros de todos os matizes; os elegantes veados e a silenciosa capivara noturna. Não faltam animais rastejantes, mantidos sob controle pela vigilância das emas, além de dois tiús que habitam nosso quintal desde a época da construção da casa. Tem até histórias de onças...
É maravilhoso acordar com o canto dos pássaros e ver que vigilantes emas caçam filhotes de cobras e outros insetos. Mas também tem o lado nada agradável de descobrir que um quati invadiu a casa aproveitando a portinha vai-e-vem do gato.
Não é a primeira vez, mas esta foi a mais inusitada. Uma vez vieram em bando e comeram um bolo deixado na mesa do café da manhã. Segundo minha filha mais velha, poderiam até ter trocado a senha do wi-fi.
Ainda bem que temos o “Lucky”, o gato que nos acompanha há mais de uma década, um charmoso vira latas preto e branco, adotado entre muitos recolhidos nas ruas por veterinários amorosos e que foi deixado como herança quando nosso neto Lucas voltou para os EUA.
O gato já mereceu nosso respeito depois de mostrar bravura diante de quatis em bando, mesmo saindo muito ferido, além de nos proteger de morcegos, dando verdadeiros saltos mortais para matar um invasor.
Mas dessa vez ele mereceu a medalha de mérito felino pela defesa que fez da casa invadida por um abusado quati.
Havia inúmeros sinais de luta entre o gato e o invasor, tufos de pelagem perdida pelo Lucky, peças de decoração quebradas e o desagradável excremento do selvagem pelo chão.
Perseguido pelo gato, o quati se refugiu na adega, e se escondeu entre as garrafas de vinho.
O chão exibia cacos de quatro garrafas quebradas e pouco líquido no chão, deixando evidente que o invasor quis mesmo se embebedar – com as lambidas de um bom vinho italiano que eu guardara para uma ocasião especial, além de outras garrafas mais corriqueiras.
Ébrio, o animal não conseguia sair de lá por si mesmo. Fechamos a porta e fomos atrás de ajuda para nos livrar do selvagem beberrão.
Depois de uma rinha com o animal, os brigadistas puderam exibir o troféu de sete quilos em uma armadilha. Segundo nos disseram, o trabalho demorou mais por se tratar de um lugar apertado, onde o quati “grogue” ofereceu mais resistência do que o normal.
Livres do quati ébrio, voltamos os olhos ao quintal calmo onde reina solitária a seriema (cariama cristata), ave que me inspirou esses versos:
“Ah, cariama; cariama cristata,
que bem faz ao campônio:
liberta-o das cobras do demônio,
dá-lhe o canto que é cantata.”



