Pai ignorado
Ontem, celebramos em família o Dia dos Pais, e as lembranças tomam conta dos pensamentos, no exercício do que chamamos de memória profunda, onde encontramos um efeito estimulador para a criação artística.
“Relembrar aquelas experiências que nos impelem à reflexão podem nos levar a obter um “acordo” entre nossa consciência com seus problemas, por entendermos as dores da existência – o que parece determinante para a reflexão filosófica”, como ensina o filósofo Eric Voegelin.
Quando volto à infância, relembro momentos de muito sofrimento pela ausência do pai. Eu não era o único, muitos dos meninos do orfanato não conheciam seus pais.
Foi por volta dos meus onze anos que tomei o baque deste fato, porque no meu registro de nascimento constava “Pai ignorado”, e essa constatação tornou-se uma marca de fogo para o resto da vida.
Jamais soube nem ao menos uma pista de quem seria meu progenitor.
Essa importante ausência na infância, geradora de muita dor e carência, teve, no entanto, uma alta premiação na idade adulta no papel de pai e na velhice, ao me tornar avô.
Lembro-me que meu neto Lucas, ainda na escolinha que frequentou no Brasil, no Dia dos Pais, incluiu o nome do avô ao lado do nome do pai no seu desenho.
O poeta romeno George Popescu me abre perspectivas para esse exame de camadas do meu ser, quando assegura:
“Com o olhar profundo da memória (...)
irás descobrir todas as pobres existências
que me serviram de escudo e muro de defesa”
no tempo mágico de uma só piedade”.
Um escudo e um muro de defesa cercaram-me até tornar-me pai, quando procurei fazer da paternidade o melhor exercício de criação de um tempo mágico.
Recordo-me de um episódio na escola Pequeno Príncipe onde minha filha caçula estudava. Quando fui buscá-la no final das aulas, enchi-me de coragem para retirar um sapo que assustava as crianças. Sempre tive grande asco pelos sapos, mas me enchi de coragem naquela hora e o peguei com a mão.
Este episódio me deu a dimensão exata do papel do pai que não tive: a segurança transmitida de que nos momentos difíceis o pai estaria lá para proteger o filho.
Assim me assalta a recordação de trechos do romance “O Primeiro Homem” de Albert Camus, e me sinto na pele do personagem do escritor franco argelino que “jamais conheceu seu pai, que continuará a dormir à distância, o rosto perdido para sempre nas cinzas. Havia um mistério neste homem, um mistério que ele desejava captar, mas, enfim, não havia senão o mistério da pobreza que faz das pessoas seres sem nome e sem passado …”
Num poema intitulado VILA JAIARA, que escrevi alguns anos atrás, a memória salta como um herbário que tenta fazer acordo entre a dor do menino com a paz do idoso:
Bambus, cravos-de-defunto,
capim meloso, eucaliptos:
Fins de tarde em Anápolis,
Vila Jaiara e sua escola dominical:
sem medo da savana mental. (...)
Nenhum verso nos salvados
do incêndio
da tua ausência, Anápolis.
Mar sonhado
no redemoinho de agosto;
montanhas de sentimento
no cerrado do pai ignorado.




Ah, Adalberto! Como é bom te ler, obrigada por me deixar ver um cantinho tão importante do seu interior. Tenho apreço por sua escrita e seu modo de enxergar o mundo.