Fechado para balanço
Notas feitas no 12o. andar do ano 2025
Quando criança, me intrigava a placa que aparecia nas portas do comércio nessa época do ano: “Fechado para Balanço”. As lojas costumavam baixar as portas no fim de dezembro com esse aviso simples e definitivo.
Não era figura de linguagem. Era trabalho braçal mesmo, espanando a poeira do estoque, funcionários com o lápis atrás da orelha, contas rabiscadas em livros grossos ou em papel pardo, caixas registradoras em silêncio, tentando descobrir onde, afinal, tinha ido parar algum item desaparecido ou não anotado pelos vendedores.
Com o tempo, a expressão fugiu do comércio e passou a fazer parte do nosso cotidiano.
No nosso depósito imprevisível de dias também é comum fazer um balanço geral, mesmo sabendo que “nem sempre a conta bate...”
Ao fazer meu inventário particular, noto que realizei muitos dos projetos que tinha em mente no início deste ano, mas outros ficaram “em estoque”, promessas feitas em janeiro e agora vencidas.
Este 2025 deixou números difíceis de ignorar, como percorrer com minha mulher mais de 4 mil quilômetros pelas estradas do sul da Itália, onde tudo parece ter um inventário ancestral: o mar, os velhos edifícios, as pedras das ruas estreitas, ruídos e vozes de quem escreveu o mundo antes de nós; registros guardados desde a Magna Grécia.
Também foram destaques alguns dias memoráveis vividos numa praia na Sicília, no final da primavera italiana com filha, genro e netos, enquanto o Tirreno soprava uma brisa que não consta dos vídeos do YouTube.
Gosto de pensar nesse balanço como memórias que não cabem em recibos e sim como presentes para o coração do viajante: o que entra no ativo — abraços, conversas demoradas, pessoas que nos encontram (e encantam) na hora certa.
Muitos livros povoaram o ano que se encerra e enriqueceram meus dias. Em particular fiquei muitíssimo feliz com a edição de uma seleta dos meus poemas a ser lançada em meados de janeiro.
Mas também há itens que devem ser baixados e esquecidos como prejuízo, principalmente as mágoas antigas, as expectativas infladas ou a pressa inútil que só gera angústia. E há aqueles que já não servem mais e que deveriam ser descartados, mas que a gente insiste em guardar “para o ano que vem”.
No final, esse balanço não fecha. Nem precisa. Basta separar o que ainda nos move daquilo que já pode ir embora.
Fecho agora. Reabro em breve — com a esperança teimosa das manhãs em que o dia começa como se nunca tivesse havido um inventário anterior; e da porta antevejo entre as árvores o sol em tonalidades que tornam inesquecíveis alguns dos nossos dias vividos. E assim, rememoro um verso do poeta gaúcho Mário Quintana:
“Lá bem no alto, no décimo segundo andar do Ano, mora uma louca chamada Esperança que tapa os ouvidos, se atira — e, ó miraculoso vôo! — acorda outra vez menina na calçada, dizendo bem devagarinho: meu nome é Es-pe-ran-ça.”
Esta a sensação que dezembro me faz sentir na pele: estar ‘Fechado para Balanço’, acomodado neste 12º andar do ano, feliz com as celebrações desta passagem e à espera da menina Esperança.




Fantástico resumo, Adalberto. E ilustrado com Mario Quintana, fica ainda mais saboroso.
A exigência da gestão moderna de se fazer a contagem do estoque em dupla verificação, nos dá uma dica boa: revisitar as memórias do ano que passou, aproveitando que a Esperança ainda no primeiro andar, tem muito a percorrer.