Depois do apito final
Do que estou falando quando falo de futebol
Ano de Copa do Mundo, 2026 me provoca reflexões sobre o esporte que ocupa boa parte do meu tempo de lazer e entretenimento. Volta à memória a infância em Anápolis, onde tive o privilégio de assistir a um jogo de futebol profissional pela primeira vez na vida: uma partida do Ipiranga Atlético Clube, e a suprema emoção de assistir à transmissão pela Tv da vitória do Brasil na Copa do México de 1970. Ali nasceu minha paixão pelo futebol.
Naqueles anos, a Vila Jaiara era o centro do nosso mundo, mas no orfanato eu repetia, silenciosamente, um mantra: um dia vou sair daqui e fazer vestibular em Goiânia.
Hoje, aos 71 anos, esse parece ser um percurso transparente, quase linear. Não foi, porque entremeado de noites e dias de dúvida, de medo e insegurança.
Quando passei no vestibular, mudei-me para Goiânia e aqui comecei a torcer pelo time do coração: o Vila Nova Futebol Clube.
Aprovado para o curso de Física na Universidade Federal de Goiás, revejo-me de cabeça raspada, após o “trote” imposto aos calouros daquela época. Logo encontrei um lugar para morar na Casa do Estudante Universitário, bem próxima à sede do Vila. No ano seguinte, assisti aos jogos da Seleção de 1974, na Tv colorida da casa de minha namorada, com quem me casei há 51 anos.
O futebol se tornou parte do meu cotidiano. Virou conversa de corredor e bar, rotina de uma vida que começava, enfim, a se organizar. Ao longo dos anos, vibrei com alguns títulos dos times favoritos, mas amarguei outras tantas derrotas.
Concluí que ganhar não resolvia nada de essencial, mas ajudava a prosseguir na dura luta cotidiana. Perder doía, mas não era o fim do mundo. Com o passar do tempo, algo começou a mudar.
O jogo passou a me interessar por outros motivos: o distanciamento quase terapêutico das tensões cotidianas, a inteligência de uma jogada improvável, a beleza de um gol de placa.
A paixão não acabou; só é mais calma. Não fico mais enfurecido após a derrota, nem sinto a euforia desmedida depois da vitória.
Durante a pandemia, assisti ao documentário Sunderland até morrer, sobre o time inglês conhecido mais pelas dificuldades do que pelas vitórias. O sofrimento recorrente da torcida que insistia apesar de tantas derrotas, o clube que parecia existir mais pela fidelidade dos torcedores: isso tem tudo a ver com o Vila Nova, time do coração.
Quando o Sunderland voltou à Premier League, vibrei com a notícia. O que para o clube foi uma façanha, para mim soou como sinal de que certas coisas resistem o bastante para ainda fazer sentido, e que a resiliência de um time pode, sim, ser um exemplo de atitude vitoriosa.
Talvez seja isso que o futebol me ensinou depois de tantos lances: nem sempre se trata de vencer, mas de permanecer na luta.
Quando esta crônica estiver diante dos olhos do leitor, já saberemos como a Seleção brasileira se saiu na nossa estreia na Copa. Qualquer que tenha sido o resultado, continuaremos torcendo pela Seleção e pelos clubes do coração, porque essa fidelidade, importa mais do que o resultado, por tornar-se parte de quem somos.



